Vídeo mostra Moraes e a mulher em jatinho ligado a Vorcaro e contraria versão do gabinete
Imagens reveladas pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, mostram o ministro do STF e a advogada Viviane Barci desembarcando de um Legacy 650 ligado a empresas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, três meses depois da data de um contrato de R$ 50 milhões encontrado pela Polícia Federal.

Imagem ilustrativa. Jato executivo em pista de aeroporto ao anoitecer. A aeronave da foto não é a que aparece no vídeo divulgado.
Um vídeo divulgado no fim de semana mostra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e a mulher dele, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jato executivo ligado a empresas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As imagens foram reveladas pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, e contrariam a versão que o gabinete do ministro sustentou publicamente neste ano.
As cenas foram gravadas em 22 de agosto de 2025, no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e mostram o casal deixando a aeronave no pátio do aeroporto. O avião é um Legacy 650, de prefixo PP-NLR.
A quem pertence o avião das imagens
A aeronave está registrada em nome da Fraction 024, empresa que tem participação da Viking Participações, controlada por Daniel Vorcaro. A operação dos voos é feita pela Prime Aviation, companhia de táxi aéreo na qual o ex-banqueiro também aparece como sócio minoritário, por meio de um fundo patrimonial.
Essa cadeia de empresas é o ponto central da disputa sobre o caso. O avião não está no nome pessoal de Vorcaro, e é sobre essa distinção que a defesa do ministro se apoia.
O que o gabinete havia dito
Quando reportagem da Folha de S.Paulo revelou, em março deste ano, uma série de oito voos do casal em aeronaves ligadas ao ex-controlador do Banco Master, o gabinete de Moraes respondeu por escrito negando as viagens. A nota afirmava que o ministro nunca havia viajado em avião pertencente a Daniel Vorcaro e classificava as informações como absolutamente falsas.
O vídeo agora divulgado foi gravado dentro do período apontado por aquela reportagem, que trata de voos realizados entre maio e outubro de 2025. Segundo o levantamento, o conjunto das viagens teria valor de mercado superior a R$ 600 mil.
O contrato de R$ 50 milhões que a Polícia Federal encontrou
O voo registrado em imagem aconteceu cerca de três meses depois da data que consta em um documento apreendido pela Polícia Federal: um contrato de até R$ 50 milhões entre a Viking Participações e o escritório Barci de Moraes, datado de 12 de maio de 2025 e apresentado como pagamento de honorários advocatícios.
Pelo texto do documento, R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de empresas donas de aeronaves, sendo 33,33% da Fraction 024, proprietária do Legacy 650, e 20% de outra empresa destinada à compra de um helicóptero Airbus EC 155 B1. Os R$ 10 milhões restantes viriam como reembolso de despesas com as aeronaves.
O escritório nega que o negócio tenha saído do papel. Em nota, afirmou que o documento é uma minuta que nunca chegou a ser assinada, que não prestou serviço nem recebeu valor algum relativo a ela e que mantinha um único contrato com o Banco Master, firmado no início de 2024, sem qualquer transferência ou substituição.
As mensagens de julho de 2025
Entre o material recolhido pelos investigadores estão mensagens trocadas em 16 de julho de 2025 entre Vorcaro e um sócio da Prime Aviation. Na conversa, o ex-banqueiro pergunta se não estariam usando, e o interlocutor responde que o ministro e a advogada já vinham usando aviões e helicópteros da operadora.
Procurados por veículos que publicaram o vídeo, o gabinete do ministro no Supremo, Viviane Barci e o escritório Barci de Moraes não responderam até a publicação das reportagens. Em manifestações anteriores, o escritório sustentou que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime Aviation, pagando pelos voos, e que nem Vorcaro nem parentes dele estavam a bordo nessas viagens.
O caso Banco Master
Daniel Vorcaro é o dono do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025. A partir da liquidação, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que apura fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e a atuação de uma organização criminosa acusada de obter informações sigilosas e invadir dispositivos.
O ex-banqueiro está preso desde o início de março, detido na terceira fase da operação. Em maio, na sexta fase, o pai dele, Henrique Vorcaro, também foi preso. Somadas todas as etapas, a Justiça determinou o bloqueio de bens de investigados até o limite de R$ 27,7 bilhões.
A repercussão a duas semanas da eleição
O vídeo caiu no meio da campanha eleitoral, a duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, escreveu nas redes sociais que o ministro "sentou na cadeira, aparelhou o Estado e sua máfia implodiu a democracia, sob o falso pretexto de 'protegê-la'".
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou uma foto vestindo camiseta com a imagem de Moraes e uma frase de ataque ao magistrado. Alexandre de Moraes é alvo de dezenas de pedidos de impeachment protocolados no Senado, que cabe ao presidente da Casa decidir se levam adiante.
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