“Até a máfia tem ética”: Gilmar Mendes acusa Mendonça de viés eleitoral no caso Master
Na sessão que analisou o relatório da PF sobre mensagens de Vorcaro a Moraes, o decano do STF disse que André Mendonça conduziu o caso de olho na eleição. Mendonça negou, chamou a acusação de leviana e cobrou respeito.



O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, acusou nesta terça-feira (15) o colega André Mendonça de ter conduzido com intenção eleitoral a apuração sobre as mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. No ponto mais duro da fala, feita durante a sessão extraordinária do plenário, Gilmar classificou a conduta como covarde e disse que "até a máfia tem ética".
A sessão havia sido convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para decidir se o tribunal abre investigação contra Moraes a partir do relatório da Polícia Federal pedido por Mendonça, que foi relator do caso Banco Master até o início de setembro. O documento reúne mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro em novembro de 2025, dias antes da primeira prisão do empresário.
A acusação do decano
Gilmar sustentou que Mendonça sabia desde março das menções a Moraes no material apreendido e só encomendou o relatório à PF com a campanha eleitoral em andamento. Para ele, a data em que o conteúdo ganhou publicidade, perto do feriado de 7 de Setembro, não foi coincidência.
"É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido", afirmou. O ministro comparou o episódio aos bonecos infláveis usados em protestos políticos, depois que apoiadores levaram às ruas, no feriado, um boneco gigante de Mendonça, e pediu que ninguém tente envolver o Supremo nas eleições.
Na sequência, disse que um integrante da Corte não pode ser submetido a esse tipo de exposição, mesmo quando é citado numa investigação. "É uma atitude covarde. Até a máfia tem ética. É preciso ter decência", declarou, dirigindo-se a Fachin e pedindo desculpas pela franqueza. Gilmar também falou em omertà, o código de silêncio das máfias italianas, e afirmou que uma apuração parcial é uma apuração viciada.
Dedo em riste e troca de acusações
A fala abriu um dos momentos mais tensos do dia. Com o dedo apontado para Mendonça, Gilmar repetiu que houve "evidente condução político-eleitoral" e que pessoas decentes não agem daquela forma.
Mendonça reagiu no mesmo tom. Pediu que o decano não apontasse o dedo para ele, disse que Gilmar não estava falando "com qualquer um" e cobrou respeito ao tribunal. Também classificou a acusação como leviana. Gilmar respondeu que quem não se dá ao respeito não merece respeito.
Ao longo da sessão, Mendonça sustentou que as decisões que tomou como relator ficaram dentro dos autos e das atribuições do cargo, e negou agir em favor de qualquer grupo político. Segundo ele, a apuração determinada em agosto partiu de uma comunicação da PF que apontava possíveis menções ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Não foi o único choque
O embate com Gilmar foi um entre vários. Pela manhã, Moraes acusou Mendonça de estar a serviço de um grupo político, o que o relator chamou de mentira. Gilmar e Luiz Fux divergiram sobre o afastamento de Andrei Rodrigues, e Fux disse ver a formação de uma "PF paralela" contra o Judiciário.
À tarde, ao defender Gonet, Gilmar voltou a atacar Mendonça, a quem atribuiu "sentimento policialesco". A nova discussão terminou com o pedido de vista do ministro Flávio Dino, que suspendeu o julgamento sem decisão sobre a abertura de investigação contra Moraes.
Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli não votaram: os dois se declararam suspeitos no caso.
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