Afastamento de Andrei Rodrigues antecipa a disputa pelo comando da Polícia Federal
William Murad, número dois da corporação, assumiu interinamente após a decisão de André Mendonça. A escolha do substituto definitivo, que estava prevista para um eventual novo mandato de Lula, foi jogada para agora.

O delegado William Marcel Murad, diretor-executivo e número dois da Polícia Federal, assumiu na terça-feira (8) o comando interino da corporação. Ele substitui Andrei Rodrigues, afastado por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A decisão saiu na Petição 16.662, relatada por Mendonça, e também atingiu Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência da PF. Segundo o despacho, relatórios produzidos pelo setor de inteligência da corporação submeteram o ministro a "monitoramento sistemático" entre 3 e 31 de agosto deste ano. Foram ao menos seis documentos no período.
Mendonça escreveu que os relatórios acompanhavam sua atuação no Supremo, faziam avaliações sobre decisões judiciais e traziam análises sobre integrantes da Advocacia-Geral da União e sobre policiais federais. Para o ministro, o afastamento é necessário para que STF, AGU e a própria PF possam "exercerem suas atribuições sem constrangimentos ilegais". A liminar ainda suspendeu a "produção, elaboração ou compartilhamento, ainda que interno, de todo e qualquer relatório de inteligência" sobre o caso.
O pedido de afastamento partiu do partido Novo, que também requereu a prisão preventiva de Andrei Rodrigues. Essa parte foi negada pelo ministro.
O Supremo já tem maioria para manter o afastamento
A Segunda Turma do STF abriu sessão virtual extraordinária às 10h de terça-feira para referendar a decisão. Gilmar Mendes pediu vista logo na abertura, movimento que interrompe o julgamento. Ainda assim, Luiz Fux e Nunes Marques anteciparam os votos e acompanharam o relator, formando maioria de três entre os cinco integrantes do colegiado.
Faltam os votos de Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Enquanto o julgamento não termina, a decisão de Mendonça continua valendo e Andrei Rodrigues segue fora do cargo.
Onze diretores da Polícia Federal assinaram manifestação de apoio a Andrei e a Almada e colocaram os próprios cargos à disposição do novo comando. No texto, repudiam "toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana".
Quem assumiu, e quem pode assumir
Murad é delegado de carreira, formado em direito pela Universidade de São Paulo. Entrou na PF em 2002, foi o primeiro colocado do Curso de Formação Profissional da Academia Nacional de Polícia e ocupava a diretoria executiva desde janeiro de 2025.
Andrei Rodrigues comandava a corporação desde janeiro de 2023. Também delegado de carreira, foi responsável pela segurança de Lula na campanha de 2022 e teve o nome anunciado para o cargo em dezembro daquele ano pelo então futuro ministro da Justiça, Flávio Dino.
A definição do comando definitivo já está em disputa. A coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, informou que a delegada Helena de Rezende, atual diretora de Gestão de Pessoas da PF, está entre os nomes cotados. Pela publicação, a escolha atenderia a um pedido da primeira-dama Janja para que uma mulher ocupe a direção-geral pela primeira vez na história da corporação.
Helena de Rezende é pós-graduada em administração pública pela Fundação Getulio Vargas. Na Polícia Federal, passou pela fronteira norte do país, por reservas indígenas e pela chefia da área operacional da Interpol.
Uma sucessão que estava marcada para depois
Segundo a mesma coluna, a troca no comando já era esperada, mas em outro momento e por outro motivo. Num eventual novo mandato de Lula, Andrei Rodrigues deixaria a PF para assumir o Ministério da Segurança Pública prometido durante a campanha.
O afastamento judicial mudou o calendário. O que seria uma sucessão planejada virou disputa imediata, no meio de uma das piores crises recentes entre o Executivo, a Polícia Federal e o Supremo.
Até a publicação desta reportagem não havia anúncio oficial sobre o comando definitivo. Andrei Rodrigues, a Polícia Federal, a AGU e o Ministério da Justiça não haviam se manifestado publicamente sobre a decisão.
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